Em parceria com diversas entidades e instituições nacionais e internacionais, o Instituto Eco-Engenho concebeu e vem implementando o Programa H2SOL - Água Solar, que visa a instalação de microssistemas produtivos de irrigação para produtos de alto valor agregado, com uso de energia renovável, e tecnologias adequadas em comunidades remotas do semi-árido do Nordeste do Brasil.
Nesse contexto foi concebido o projeto Baixas. Inicialmente com um canteiro hidropônico, de cerca de 100m2, levando-se em conta a extrema escassez de água na região, nos períodos de seca. Com a hidroponia é possível recircular água, potencializando seu uso, direcionando-a para as raízes das plantas, com o mínimo de desperdício. Pela inexistência de rede elétrica, foram utilizados módulos de energia solar fotovoltaica para alimentar uma pequena bomba d'água de 12v cc, que faz a recirculação da água no sistema. O tipo de cultura escolhido foi a pimenta, por sua adequação ao sistema hidropônico, resistência e principalmente seu alto valor agregado quando comercializada em forma de vinagrete e/ou desidratada em secadores termo-solares, para comercialização como condimento.
Dentre as instituições que apoiaram este projeto, destacam-se: Fundação Fiorello LaGuardia/Fundação Cariplo, Fundo de Microcrédito de Alagoas - FUNCRED, United State Agency for International Development - USAID-Brasil, e3V - Environment Energy and Enterprise Ventures Private Limited e InWEnt.
O detalhamento do projeto encontra-se a seguir, com as explicações sobre os métodos de cultivo, construção, operação e projeções financeiras.
O QUE É HIDROPONIA ?
É um sistema de cultivo de plantas em água, sem contato direto com o solo. São cultivadas sob estruturas chamadas de estufas ou viveiros, em tubos plásticos ou canaletas por onde circula água continuamente. A água precisa estar provida de nutrientes para alimentar as plantas. Para isso é necessário que fertilizantes químicos sejam adicionados, repercutindo em suas características de qualidade, como: aparência, peso, cor e valor nutritivo.
O modelo adotado neste projeto foi concebido e teve a assistência técnica da PLANTE VERDE Projetos e Consultoria.
COMO FUNCIONA
O canteiro hidropônico é construído em madeira usando-se caibros e ripas no formato de um duplo “M” com altura máxima de 1m e mínima de 30cm, formando rampas onde são colocadas garrafas pets reaproveitadas, conectadas diretamente umas às outras, preenchidas com um substrato (carvão de casca de arroz) para fixação das raízes.
Através de pequenas mangueiras com gotejadores reguláveis em suas extremidades, injeta-se água no sistema com a solução nutritiva adequada a cultura que se quer desenvolver. Devido a inclinação das rampas, a solução nutritiva percorre todas as garrafas pets do sistema até chegar no ponto mais baixo (30cm), onde é coletada num tubo de PVC de 40mm que conduz essa solução nutritiva a uma caixa d'água inferior. Daí a solução é bombeada por intermédio de uma pequena bomba alimentada por energia solar fotovoltaica para uma caixa superior que remete este liquido, por gravidade, às mangueiras de gotejamento, fechando o circuito do sistema.
A solução nutritiva é monitorada sob um controle rigoroso para manter suas concentrações a cada reposição de água que é feita no sistema. A dimensão do canteiro é de cerca de 165 m2, ou seja, uma área de 15 m x 11m, podendo sofrer algumas variações para mais ou para menos a depender do terreno, e da disponibilidade de área do pequeno agricultor.
É aconselhável a colocação de uma tela sombrite para reduzir a intensa radiação solar do semi-árido que pode afetar consideravelmente as plantas e o sistema, com o aquecimento excessivo da solução nutritiva circulante.
O sistema é composto de 4 módulos, cada módulo é formado por 21 linhas com espaçamento de 75 cm entre elas. Em cada linha ficam fixadas 8 garrafas pet de 2 l, totalizando 168 garrafas por módulo e 672 garrafas pet no sistema.
ENERGIA SOLAR FOTOVOLTAICA PARA O BOMBEAMENTO E RECIRCULAÇÃO DA ÁGUA
Tendo em vista que a hidroponia exige um bombeamento para recirculação da água com nutrientes através das raízes das plantas e considerando que o Programa H2SOL foi concebido para inclusão econômica e social de comunidades remotas, normalmente isoladas da rede convencional de energia elétrica, o suprimento de energia nos projetos é feito com energia solar fotovoltaica. Para um canteiro de 165m2 é utilizado um módulo fotovoltaico com cerca de 70 Wp e uma pequena bomba de 12 Vcc com capacidade de 600l/h.
PREPARAÇÃO DE MUDAS E PLANTIO
A preparação das mudas é feita em canteiro de isopor utilizando substrato preparado com carvão de palha de arroz, areia lavada e pó-de-serra de madeira branca. Quando as mudas atingirem 10cm de altura ou estiverem com 6 a 8 folhas, são transplantadas para as garrafas pet, conforme o projeto.
O plantio é feito em etapas, para que a produção e a colheita sejam realizadas de modo contínuo e constante, e dessa forma atenda demanda do mercado.
SOLUÇÕES NUTRITIVAS
A solução nutritiva contém todos os elementos minerais necessários ao crescimento e desenvolvimento das plantas. Para efeito prático no manejo hidropônico pelos agricultores, os nutrientes, são agrupados em kits de soluções A, B e C, e repostos no sistema de acordo com o consumo de água.
Para preparar cada solução deve-se inserir os nutrientes na seqüência e mexer bastante, lembrando que cada solução deve se manter separada, solução A, solução B e solução C.
No sistema apresentado trabalha-se com 400 litrosl de água em circuito fechado onde são adicionados nutrientes nas quantidades de 1000ml de Solução A (macronutrientes), 400ml de Solução B (micronutrientes) e 100ml de Solução C (quelato de ferro).Obs: Cada solução deve ser colocada individualmente, ou seja, coloca-se a solução A na água, mexe-se bem, em seguida adiciona-se a solução B, mexe-se novamente, e por final a solução C e mexe-se mais uma vez.
A reposição será feita de acordo com a quantidade de água consumida. Neste projeto fazemos a reposição após o consumo de 200 litros de água utilizando as soluções nutritivas nas quantidades de 500ml de solução A, 200ml de solução B e 50ml solução C (Ferro).
COLHEITA E BENEFICIAMENTO DA PIMENTA
O projeto sugere o aproveitamento de toda a pimenta produzida envasando-a em recipiente de vidro com vinagre de álcool e sal. Esta é a melhor forma de agregar valor ao produto e estabilizá-lo no local de produção, evitando-se perdas por depreciação da qualidade dos frutos. O vinagrete de pimenta pode ser mantido com validade para consumo por cerca de 1 ano a partir de sua fabricação, mesmo de forma artesanal e sem uso de conservantes artificiais. Havendo produção suficiente, uma parte poderá ser desidratada em secadores termo-solar e em seguida moída e envasada para ser comercializada como condimento. Esse procedimento poderá ser feito quando houver demanda no mercado para esse produto desidratado. O envase é feito em recipientes de vidros de 240ml com tampa metálica rosqueada.
Para efeito do Plano de Negócios elaborado no projeto de Baixas, adotamos como referência o beneficiamento de 100g de pimenta (inteiras e/ou fatiadas), para cada unidade de molho vinagrete. Para a mesma unidade foram utilizados cerca de 140 ml de vinagre e 1 colher de chá de sal.
VIABILIDADE ECONÔMICA E FINANCEIRA
Antes de dar início ao projeto, o Instituto Eco-Engenho analisou a viabilidade técnica, econômica e financeira do projeto de Baixas. O Estudo de Viabilidade Técnica e Econômica EVTE, é um estudo que se concentra nos aspectos técnicos de produção e de desenvolvimento de um novo produto ou processo e também a relação deste produto/processo com o mercado. Ele procura demonstrar ao empreendedor ou ao potencial agente de financiamento, se a idéia proposta é viável ou não. No estudo de viabilidade, o produto ou processo é tecnicamente estudado e a viabilidade econômica da inovação junto ao mercado é estimada. Também são verificadas as necessidades e mesmo a adaptação que um produto ou processo precisa sofrer para que seja viabilizado. Se o EVTE apontar que a idéia é viável, passa-se para a elaboração do Plano de Negócios, que se constitui num roteiro operacional, financeiro e estratégico a ser seguido. Os resultados obtidos nortearão o empreendedor a tomar decisões assertivas quanto à implementação do projeto.
No caso de Baixas, esse projeto foi desenvolvido e apresentou-se viável como mostram as projeções financeiras a seguir.
Conforme os dados de investimento inicial, custos, despesas e receita, o projeto apresentou os seguintes resultados financeiros para o primeiro ano: Lucro operacional líquido mensal: R$ 1.341,60; Ponto de equilíbrio: 28,03%. Isso significa que com 28,03% das vendas realizadas, a empresa está em equilíbrio, ou seja, não terá nem lucro e nem prejuízo; Lucratividade: 38,83%. São os ganhos obtidos em relação às vendas realizadas; Rentabilidade: 1,90%. Define o percentual de retorno obtido de acordo com o volume de capital próprio investido na empresa. Assim, ela indica quanto a empresa teve de lucro para cada unidade monetária de capital próprio colocado no empreendimento. TIR: 5,49%. A TIR se compara a uma taxa de juros recebida para um investimento. Pay Back: 0,68 ano, ou 7 meses. Conforme o fluxo de caixa, o projeto paga o investimento em aproximadamente 7 meses, contados depois dos 3 meses entre o plantio e a colheita.
VIVER SEM DOR DE CABEÇA E COM BOM HUMOR
Essas são duas das propriedades terapêuticas das pimentas, segundo o clínico geral Alexandre Feldman.
“Existem estudos demonstrando a eficácia da capsaicina e da piperina - componentes químicos, respectivamente, da pimenta vermelha e da pimenta-do-reino - na prevenção de dores de cabeça. Essas substâncias também possuem propriedades anticancerígenas. Comer pimenta ainda “provoca” bem-estar, devido estimulação à liberação de endorfinas, fabricadas no cérebro e responsáveis por sensações agradáveis, gerando bom humor”, explica.
Feldman conta que maias, astecas, hindus e várias tribos africanas sempre foram consumidores de pimenta, hábito hoje disseminado entre seus descendentes, no México, Índia, África e nordeste do Brasil (por influência africana).
O médico é um defensor das pimentas e incentivador de seu consumo como remédio e na prevenção de doenças.
As substâncias químicas que tornam as pimentas ardidas são capazes de combater dores crônicas, por sua ação antiinflamatória. A recomendação é experimentar sem medo do sabor picante e, assim, acostumar, pouco a pouco.
* LUIZ FIGUEREDO
Revista Terra da Gente ANO 2 Nº 18 Outubro 2005.